Isaac de Oliveira

Artes Plásticas e Design 

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ISAAC DE OLIVEIRA E AS ARARAS AZUIS

José Neres

(Professor e membro da Academia Maranhense de Letras)


 

  O Brasil é um país gigantesco, com características tão diversas, que muitas vezes se multiplica (ou de divide), dando origem a uma quantidade intermináveis de “Brasis” que nem sempre se comunicam e que quase sempre desconhecem os valores e talentos produzidos fora dos limites do olhar de cada uma dessas infinitas partes.

  Assim, excluindo-se os casos maciçamente divulgados pela mídia de massa, os artistas, as produções científicas e os caracteres culturais de uma região são totalmente estranhos aos moradores dos outros rincões do país. Esse é o caso, por exemplo, do artista plástico Isaac de Oliveira e do Projeto Arara Azul, cujas ressonâncias talvez sejam mais visíveis, audíveis e sentidas no exterior que nos outros estados da federação.

  Nascido na Bahia, mas radicado há mais três décadas em Campo Grande (MS), depois de uma passagem em São Paulo, o artista plástico Isaac de Oliveira é um dos mais talentosos pintores das artes contemporâneas brasileiras.       Dono de um estilo que mescla a suavidade de traços milimetricamente calculados com densidade de cores fortes e contrastantes, esse artista parece ter encontrado na região pantaneira a paisagem ideal para transportar às telas a exuberância de uma biodiversidade ímpar capaz de despertar múltiplas sensações nas pessoas.

  Apesar de se dedicar a vários motivos e temas, é na estilização das formas da natureza que esse poeta da tinta e dos pinceis melhor se realiza. São antológicas suas telas reproduzindo a beleza das multicoloridas floradas de ipês, assim como também são de extremo bom gosto o delineamento dos detalhes de flores, os animais silvestres e suas incursões pela nudez artística que sugerem as sutilezas das formas femininas, sem as apelações de um erotismo vazio.

  A fauna do Pantanal é outra das preferências desse artista. Dando asas à imaginação, mas sem cair na tentação de pecar pelo excesso, ele eterniza em suas telas as formas e as cores tanto de peixes quanto de aves, valorizando uma espécie de movimento estático do objeto observado, para despertar em quem veja os quadros (muitos deles disponíveis na internet) a sensação de vida, não de algo morto, parado, inerte, ou em extinção.

 

  Deixando a arte e partindo para o mundo das ciências, foi a partir da constatação de que as araras azuis eram mais que belas aves raras, mas sim seres em processo de extinção, que a professora e pesquisadora Neiva Guedes decidiu dedicar parte significativa de seus esforços e estudos para preservar essa espécie, dando origem ao Projeto Arara Azul e, posteriormente, ao Instituto Arara Azul, ambos respeitados mundialmente e reconhecidos como exemplos de integração entre o mundo acadêmico e a prática social em prol de um mundo melhor.

  Com sede em Mato Grosso do Sul, desse projeto não nasceram apenas artigos, dissertações e teses, pois, a partir da intervenção direta de sua idealizadora e de sua pequena equipe de colaboradores, muitas aves foram salvas, muitos ninhos foram protegidos e muitos filhotes puderam ensaiar seus primeiros voos rumo à preservação da espécie. Ou seja, nunca foi apenas uma questão de cumprir formalida des acadêmicas.

  A vida sempre foi o foco principal desse projeto, que embora tenha nascido voltado para uma ave em particular, preocupa-se também com a preservação de outros pássaros. Em troca, a ciência brasileira também pôde alçar altos voos, alcançando reconhecimento e colocando no cenário mundial pesquisadores que fazem a diferença diante de um mundo em crise.

  Isaac de Oliveira e o Projeto Arara Azul são dois claros exemplos de que o gigante Brasil é muito mais que o somatório dos vários “Brasis” que mal se conhecem.